Capítulo 1 — A quietude que esmagava
Era a vigésima terceira aurora desde que matamos a última besta — ou assim fingíamos contar, porque o tempo aqui não passa: ele se arrasta, gota a gota, como sangue coagulado em uma ferida que nunca fecha.
O planeta nos engolia sem pressa. Planícies de musgo negro sugavam qualquer resto de luz, transformando-a em trevas viscosas. As torres antigas, outrora erguidas por mãos que já haviam esquecido o que era esperança, erguiam-se agora como ossos podres, inclinadas, prestes a desabar sobre quem ousasse lembrar que um dia existiu algo além do medo.
Meu nome era Elias — uma palavra que eu repetia em silêncio, como quem range os dentes contra o inevitável, para não me dissolver de vez na massa indistinta de presas.
Eu me sentava na borda da cratera que chamávamos de acampamento, os joelhos contra o peito, os pulmões lutando contra o ar denso, úmido, impregnado de decomposição e fungos que fediam a promessas quebradas. O sol alienígena não nascia; ele se arrastava no horizonte, inchado, purulento, uma úlcera amarela que nunca aquecia, apenas iluminava o suficiente para nos lembrar do que havíamos perdido.
Abaixo, os outros se moviam como espectros condenados a fingir vida. Sete — ou seis, se descontássemos Kael, o alienígena que se grudara a nós como uma sombra que não se livra. Sua pele cinzenta, coberta de placas quitinosas que rangiam a cada movimento, reluzia como óleo derramado sobre metal enferrujado.
Ele lutara ao nosso lado na matança anterior, sua lâmina curva mergulhada no mesmo icor negro que ainda manchava minhas mãos em sonhos. Agora permanecia ali, imóvel, os olhos verticais fixos no céu violeta como se aguardasse a sentença que todos sabíamos vir. Eu o odiava por existir; odiava mais ainda por nos lembrar que nem mesmo a traição era certa — apenas o ciclo.
A paz reinava. Uma paz opressiva, pegajosa, que se infiltrava nos pulmões e os enchia de chumbo. Não havia rugidos, nem tremores, nem o cheiro metálico do sangue — apenas o silêncio, esse silêncio que grita mais alto que qualquer berro.
As crianças — as poucas que restavam, magras, de olhos fundos — mexiam em pedras luminescentes com dedos trêmulos, sem rir, sem falar, como se o som fosse um crime que não podiam mais cometer. Os adultos sussurravam planos mortos: sementes que apodreciam antes de brotar, armas que enferrujavam antes de disparar, saídas que nunca existiram.
Eu sabia.
Sabia porque o sonho me visitava todas as noites, idêntico, esmagador: o transporte descendo sem ruído, as portas se abrindo como bocas famintas, os novos rostos emergindo da névoa — rostos que nunca nos viram, mas que já carregavam o mesmo pavor gravado nos ossos. E entre eles, sempre, a silhueta maior, ainda informe, pulsando, crescendo.
A nova besta. Não a mesma. Nunca a mesma. Sempre mais pesada, mais paciente, mais inevitável.
Naquela aurora, enquanto o ar se condensava em gotas frias sobre minha pele, ouvi-o: um som baixo, arrastado, como couro rasgando carne seca, vindo de um lugar que não era nem perto nem longe — apenas embaixo de tudo. Não era ameaça. Era lembrete. O ciclo não pausava; ele apenas fingia dormir para que o terror da vigília doesse mais.
Levantei-me devagar, os músculos protestando como correntes velhas. Kael ergueu a cabeça na mesma direção, as pupilas dilatando-se em fendas negras. Nossos olhares se encontraram — não havia cumplicidade, apenas o reconhecimento mútuo de quem já foi condenado duas vezes.
Voltei-me para os outros. Minha voz saiu rouca, quase inaudível, mas carregada do peso de todas as repetições:
- Elas voltam.
De tempos em tempos.
E nós... nós nunca saímos daqui.
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Era cheio — cheio de respiração contida, de corações que batiam mais devagar para não chamar atenção, de uma certeza que nos esmagava como o teto de uma tumba que ainda finge ser casa.
Capítulo 2 — O ciclo das bestas
O ciclo não era um relógio. Era uma respiração — profunda, lenta, paciente — que o planeta exalava por entre as fendas do musgo negro. Cada expiração trazia o cheiro de ferro enferrujado e carne fresca; cada inspiração sugava o ar dos nossos pulmões, deixando-nos mais leves, mais vazios, prontos para a próxima enchente de terror.
Eu contava as voltas como quem conta cicatrizes no próprio corpo.
A primeira: quando acordamos aqui, nus, sem memória, apenas com o instinto de correr. As bestas vieram então como sombras alongadas, com garras que arranhavam o céu antes de arranhar carne. Matamos algumas — ou elas nos deixaram matar, para que aprendêssemos o gosto da vitória falsa.
Depois veio a paz: longos meses de silêncio onde o sol purulento mal se movia, e nós fingimos reconstruir vidas. Plantamos raízes que nunca brotaram. Construímos abrigos que o vento derrubava como se fossem de cinza. E sonhamos com saídas que o planeta nunca permitiria.
De tempos em tempos, elas voltavam.
A segunda volta foi pior. As bestas já não eram as mesmas; cresciam espinhos onde antes havia pele lisa, olhos que brilhavam com inteligência roubada — talvez de nós, talvez dos que vieram antes. O grupo humano — o que restava — lutou ao meu lado. Perdemos três.
Kael, o alienígena, cravou sua lâmina na garganta da matriarca, e o icor negro jorrou como óleo quente sobre nós. Celebramos a vitória com sussurros roucos, como se o barulho pudesse acordar o ciclo novamente. Mas ele acordava de qualquer jeito.
De tempos em tempos, o silêncio mentia.
Agora, na vigésima terceira aurora, eu sentia o ciclo se contrair como um músculo em espasmo. O chão tremia de leve — não o suficiente para derrubar as torres podres, mas o bastante para fazer as pedras luminescentes rolarem das mãos das crianças.
Elas não choravam; apenas olhavam para mim, os olhos fundos como poços secos. Sabiam. Todos sabiam.
Sentei-me na borda da cratera, as costas contra a rocha fria que pulsava como carne viva. Kael aproximou-se sem ruído, suas placas quitinosas rangendo como portas velhas. Ele parou a poucos passos, olhando para o horizonte violeta.
Não falava nossa língua — ou talvez falasse, mas as palavras saíam como grunhidos que o vento levava. Eu falava mesmo assim.
- Você já viu isso antes? — perguntei, a voz baixa, como se o planeta pudesse ouvir. — Em outros mundos. Outros ciclos.
Ele virou a cabeça devagar. Seus olhos verticais se estreitaram, refletindo o sol doentio. Por um instante, pensei ver algo ali — não pena, não medo, mas reconhecimento. O reconhecimento de quem já foi caça e caçador, e sabe que as linhas se borraram há muito tempo.
- Vocês são a isca — murmurou ele, as palavras saindo em um sussurro áspero, como se raspassem sua garganta. — Nós somos a ferramenta. As bestas... as bestas são o ciclo.
Eu ri — um som seco, sem humor.
- E você? O que você é?
Kael não respondeu. Apenas apontou para o céu. Lá, distante, uma mancha escura se movia contra o violeta: não uma nuvem, não uma ave. Um transporte. Silencioso. Inevitável.
A nova leva descia.
Eles emergiram da névoa como fantasmas recém-despertos: homens de ombros largos que ainda não sabiam lutar, mulheres de olhos arregalados que ainda acreditavam em salvação, crianças que ainda podiam rir sem medo. Uns cinquenta, talvez mais.
Carregavam o mesmo cheiro que nós carregávamos no início — suor fresco, confusão, vida não corrompida. Olharam para nós como se fôssemos salvadores. Nós olhamos para eles como se fossem a próxima refeição do ciclo.
Enquanto desciam a rampa, o chão tremeu de novo — mais forte. Do horizonte veio o som: couro rasgando carne seca, mas agora mais próximo, mais faminto.
A nova besta não era como as anteriores. Eu a sentia crescendo nas profundezas das planícies, alimentando-se da memória das matanças passadas. Mais alta. Mais astuta. Com olhos que já conheciam nossos nomes.
Kael ergueu a lâmina curva, mas não atacou. Ficou parado, como se esperasse permissão.
Os recém-chegados gritaram perguntas que ninguém respondeu. Os velhos sobreviventes se encolheram, alguns chorando em silêncio, outros apenas olhando para o chão como se pudessem cavar uma saída.
Eu me levantei. Meu corpo doía — não de feridas antigas, mas de algo novo: uma rigidez nos ossos, um formigamento na pele, como se placas quitinosas quisessem romper por baixo.
Olhei para minhas mãos. As unhas estavam mais longas. Mais escuras.
De tempos em tempos, as bestas voltavam.
De tempos em tempos, nós mudávamos.
E o ciclo — paciente, eterno — respirava mais fundo.
Capítulo 3 — Batalha inicial
O transporte ainda chiava ao tocar o musgo negro quando o chão se abriu.
Não foi uma explosão; foi um bocejo. Uma fenda larga, lenta, como boca de quem acorda faminto após sono longo demais. Dela subiu vapor frio, carregado de cheiro de ferro e bile.
E então ela emergiu: a nova besta.
Maior que as anteriores, mas não apenas em tamanho — em peso, em presença. Seu corpo era uma massa irregular de placas quitinosas que pareciam ter sido costuradas às pressas sobre músculos pulsantes. Braços — ou tentáculos — se estendiam em direções erradas, terminando em garras que arranhavam o ar como se testassem a gravidade.
A cabeça não tinha olhos visíveis; em vez disso, uma coroa de orifícios pulsantes que se abriam e fechavam, inalando o pavor dos recém-chegados como se fosse oxigênio.
Os novos gritaram. Um som agudo, humano, que cortou o silêncio como vidro.
Os velhos sobreviventes — nós — não gritamos. Já sabíamos que barulho atraía atenção.
Kael moveu-se primeiro. Sua lâmina curva cortou o ar em arco preciso, acertando uma das extremidades da besta. Icor negro jorrou, grosso como melado, mas a criatura nem vacilou.
Apenas virou a coroa de orifícios na direção dele, inalando profundamente. Kael cambaleou para trás, como se o ar tivesse sido roubado de seus pulmões.
- Fiquem atrás! — rosnei para os recém-chegados, mas minha voz saiu fraca, abafada pelo vapor que subia.
Eles não obedeceram. Correram em pânico, tropeçando uns nos outros, caindo no musgo que os sugava devagar.
Eu peguei a arma mais próxima — um rifle improvisado de metal retorcido e circuitos roubados — e disparei. O projétil acertou uma placa no ombro da besta; ricocheteou com um som de sino rachado.
A criatura virou-se para mim. Senti o peso daquele olhar invisível: não raiva, não fome imediata — curiosidade. Como se me reconhecesse de voltas anteriores.
De tempos em tempos, elas aprendiam.
O grupo humano se espalhou. Dois dos velhos — Marta e João, que haviam sobrevivido à segunda volta — tentaram flanquear. Marta ergueu uma lança de osso afiado; João carregava uma granada caseira que nunca testamos.
A besta os viu vir.
Um tentáculo chicoteou, rápido demais para ser visto, lento demais para ser evitado. Acertou Marta no peito. Ela voou para trás, batendo contra uma torre podre que desabou em cascata de poeira negra. Não se levantou.
João lançou a granada. Explodiu perto da base da criatura, arrancando uma placa e expondo carne rosada que pulsava como coração exposto.
A besta urrou — um som que não era som, mas pressão nos tímpanos, como se o planeta inteiro gritasse através dela.
Kael atacou de novo, saltando sobre o dorso da besta, cravando a lâmina entre duas placas. Icor espirrou, queimando sua pele cinzenta. Ele grunhiu — o primeiro som de dor que eu ouvia dele.
A besta se debateu, jogando-o contra o chão. Ele rolou, ficou de pé, mas mancava agora. Sua lâmina tremia.
Eu corri para perto. Meu corpo protestava: os ossos rangiam, a pele coçava como se algo quisesse sair por baixo. Olhei para minhas mãos — as unhas estavam pretas, curvadas.
A transformação acelerava. O ciclo não esperava mais.
Um dos recém-chegados — um homem jovem, barba rala, olhos ainda com esperança — pegou uma pedra e atirou. Acertou um orifício na coroa.
A besta parou. Por um segundo, pareceu confusa. Então virou-se para ele com deliberação lenta, quase cerimonial.
O tentáculo o envolveu, ergueu-o no ar. O jovem gritou uma vez, depois silêncio. O tentáculo apertou. Ouvi ossos quebrarem como gravetos secos.
Os outros fugiram para a cratera. Nós os seguimos, atirando para trás, recuando passo a passo.
A besta não nos perseguia com pressa. Caminhava. Cada passo fazia o musgo negro se abrir em veias escuras que se espalhavam como infecção.
No fundo da cratera, paramos. Respiração pesada. Sangue nos olhos.
Kael se aproximou de mim, mancando, a lâmina ainda pingando icor.
- Não é só ela — murmurou ele, voz rouca. — É o que vem depois.
Olhei para o horizonte. Outra fenda se abria, menor, mas crescendo. Algo se mexia lá dentro — ainda informe, ainda nascendo.
De tempos em tempos, as bestas voltavam.
Mas desta vez, uma delas olhava para mim de dentro do meu próprio reflexo distorcido na poça de icor.
A batalha inicial terminara. Não havíamos vencido. Apenas ganhado tempo — o tempo que o ciclo nos concede antes de nos tornar parte dele.
Capítulo 4 — Revelação final (versão ambígua)
A cratera não era mais refúgio; era sepulcro aberto, cujas bordas se curvavam para dentro em ângulos que a mente recusava calcular. O musgo negro pulsava como veias expostas, e o vapor que subia das fendas carregava não apenas frio, mas um sussurro — não palavras, mas a ausência de palavras, o vazio onde a linguagem se dissolve antes de nascer.
A nova besta — ou o que restava dela após o ataque inicial — erguia-se no centro da planície, mas já não era uma forma única. Seu corpo se fragmentava e recombinava em padrões que desafiavam a permanência: tentáculos que se tornavam placas quitinosas, placas que se abriam em orifícios pulsantes, orifícios que expeliam névoa negra onde formas menores se contorciam como larvas de algo maior.
Não era evolução; era eco. Eco de eras que precediam as estrelas, de ciclos que haviam consumido mundos inteiros antes mesmo de a Terra se condensar em rocha.
Kael estava ao meu lado, ou o que restava dele. Sua pele cinzenta rachara em linhas irregulares, revelando camadas internas que brilhavam com um verde doentio, como fungos luminescentes sob decomposição. A lâmina curva pendia inerte em sua mão; ele não a erguia mais.
Seus olhos verticais fixavam-se em mim, não em hostilidade, mas em algo pior: reconhecimento. Reconhecimento de quem já viu o mesmo despertar em incontáveis outros — ou talvez em mim, em voltas que eu não recordava.
- Você sente — murmurou ele, voz agora um chiado úmido, como vento através de ossos ocos. — O véu se rasga. O que vem depois... não é morte. É outra coisa.
Eu queria perguntar o quê. Mas a pergunta morreu na garganta, transformada em um gorgolejo que ecoou em múltiplas camadas, como se saísse de várias bocas ao mesmo tempo.
Meus braços pesavam; os dedos alongavam-se, unhas curvando-se em garras que não eram garras, mas prolongamentos de algo que se estendia além da carne. A pele do meu antebraço rachou devagar, revelando não músculo, mas uma massa gelatinosa que se movia independentemente, como se testasse o ar.
Cada respiração trazia dor, mas a dor era distante, como se pertencesse a outro corpo — um corpo que eu usara outrora, antes de compreender que "outrora" talvez nunca tivesse existido.
Os recém-chegados — os poucos que restavam — haviam se reunido na borda da cratera. Seus rostos eram máscaras de terror primordial, olhos arregalados fixos em mim tanto quanto na besta.
Uma mulher de cabelos negros colados ao rosto pelo suor frio estendeu a mão, como se pudesse me puxar de volta. Eu olhei para aquela mão. Não senti nada. Ou senti tudo — um vazio vasto, abissal, que engolia qualquer emoção antes que ela pudesse se formar.
De tempos em tempos, as bestas voltavam.
Mas agora eu via — ou pensava ver — que as bestas nunca partiam. Elas apenas mudavam de casca. E a casca seguinte... era sempre a que carregávamos dentro. Ou era?
A besta principal avançou, passos lentos que faziam o chão se inclinar em ângulos impossíveis. As torres podres ao redor dobravam-se para o lado errado, como se a gravidade se lembrasse de uma geometria mais antiga.
Kael ergueu a lâmina uma última vez — não para atacar a criatura, mas para me oferecer. Um gesto cerimonial, sem esperança, sem certeza.
- Termine — disse ele. — Ou deixe que termine em você. Ou... talvez já tenha terminado.
Eu peguei a lâmina. O metal queimava, mas não a pele; queimava a mente.
Quando a ergui, vi não apenas a besta, mas camadas sobre camadas: formas sobrepostas, eras colidindo, levas anteriores emergindo como fantasmas de carne e osso. Vi Marta, João, as crianças de olhos fundos — todos reciclados, todos refeitos, todos parte do mesmo tecido que agora se rasgava em mim.
Ou talvez eu os visse porque queria vê-los. Talvez fossem apenas ecos da minha própria mente se desfazendo.
Golpeei.
A lâmina atravessou a massa central da besta. Não houve resistência; apenas um vazio que se abriu, um buraco negro que sugava luz e som. Do buraco emergiu um som — não rugido, mas o eco de todos os rugidos que já haviam sido, misturados ao silêncio que os sucederia.
O icor jorrou, mas não sujou; dissolveu-se no ar, deixando apenas um gosto metálico na língua, um gosto que eu reconhecia: o sabor da própria dissolução. Ou talvez o sabor de nada.
A besta colapsou — ou se retraiu — para dentro de si mesma, deixando um vazio que o planeta preencheu devagar, como água em poço antigo. O chão parou de tremer. O vapor dissipou-se. O sol purulento pairava imóvel, indiferente.
Kael caiu de joelhos. Sua forma cinzenta desfazia-se em flocos que o vento levava. Antes de se dissolver por completo, ele olhou para mim uma última vez.
- O ciclo não tem fim — sussurrou. — Apenas respirações mais longas. Ou talvez... não haja ciclo algum.
Então ele se foi, reduzido a poeira negra que o musgo absorveu.
Os sobreviventes — os poucos — aproximaram-se devagar. Seus olhos não continham mais terror; continham dúvida. Olhavam para mim como se eu fosse algo que não sabiam nomear.
E eu os olhei de volta. Não com fome. Não com pena. Apenas... olhando.
Sentei-me na borda da cratera, a lâmina curva caída ao meu lado. Minha pele ainda se movia sob a superfície, mas a dor havia cessado. Em seu lugar, uma calma vasta, abissal.
Eu via agora o que Kael via — ou pensava ver o que ele via: o planeta não era prisão. Era útero.
Ou talvez fosse apenas pedra fria, e tudo o resto fosse ilusão da mente se partindo.
De tempos em tempos, as bestas voltavam.
Ou talvez nunca tenham vindo.
Ou talvez eu seja a besta, e elas sejam o sonho que tento acordar.
No silêncio que se seguiu, sob o céu violeta que nunca mudava, esperei a próxima aurora.
Ou talvez eu já estivesse esperando há eras.
Ou talvez a aurora nunca viesse.
O ciclo — se é que havia um ciclo — exalava mais uma vez.
E eu inspirei.
Ou expirei.
Ou simplesmente... permaneci.