O mapa do crime que ninguém mostra

O mapa do crime que ninguém mostra: por que homicídio não é sinônimo de insegurança

Todo mês circula nas redes um mapa colorido do Brasil, dividido em vinte e sete manchas de vermelho e azul, anunciando a taxa de homicídios por estado. O mais recente, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostra o Amapá em vermelho-escuro (42,5 por 100 mil habitantes), a Bahia logo atrás (36,8), e o Rio Grande do Sul num azul tranquilizador (11,3). A leitura implícita é sempre a mesma: quanto mais vermelho, mais perigoso é viver ali.

O problema é que essa leitura está, na melhor das hipóteses, incompleta.

Homicídio é um crime segmentado

Um dos achados mais consistentes da criminologia brasileira — sustentado por pesquisadores como Daniel Cerqueira, do IPEA, e por relatórios do próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) — é que o homicídio no Brasil se concentra fortemente em um perfil muito específico de vítima: homens jovens, negros, frequentemente envolvidos ou próximos de disputas territoriais do tráfico e de facções criminosas.

Não é uma distribuição aleatória de risco pela população. É um fenômeno que se agrupa em torno de conflitos por controle de território, disputas entre organizações criminosas e rotas de drogas — o que os criminologistas chamam de hotspots. Uma minoria de municípios concentra a maior parte dos homicídios do país, e dentro desses municípios, o risco também não se distribui igualmente: ele recai, de forma desproporcional, sobre quem já está inserido nessas dinâmicas.

Isso significa que, para a esmagadora maioria dos cidadãos que não têm qualquer envolvimento com o crime organizado, a taxa de homicídio do seu estado diz relativamente pouco sobre o risco real que eles correm no dia a dia.

O crime que realmente encontra o cidadão comum

Enquanto isso, os crimes patrimoniais — roubo, furto, estelionato — funcionam de um jeito estruturalmente diferente. São, em grande parte, crimes de oportunidade: um assaltante que aborda um pedestre à noite, um ladrão que arromba uma casa vazia, um golpista que liga se passando pelo banco. Não exigem inserção em uma organização criminosa nem disputa territorial. Atingem qualquer pessoa, em qualquer lugar, com uma aleatoriedade muito mais democrática — e por isso mesmo, muito mais próxima da experiência cotidiana de segurança de quem lê essas estatísticas.

E a escala confirma isso. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (dados de 2025), o país registrou 40.775 homicídios (mortes violentas intencionais) no ano. No mesmo período, foram 792.284 ocorrências de roubo e furto de celular — quase vinte vezes mais — e 2,26 milhões de registros de estelionato. Uma pesquisa de vitimização do próprio FBSP estimou que 26,3 milhões de brasileiros com mais de 16 anos foram vítimas de algum golpe ou perderam dinheiro dessa forma em 2025.

A probabilidade de um brasileiro comum ser vítima de furto, roubo ou golpe ao longo da vida é ordens de grandeza maior do que a de ser vítima de homicídio. E, no entanto, é o mapa de homicídios que viraliza — provavelmente porque a violência letal é visual e emocionalmente mais chocante, um viés de disponibilidade que distorce a percepção de risco.

O que os números por estado realmente mostram

Aqui está o ponto mais interessante: quando se olha para a distribuição geográfica do roubo de celular — a única categoria de crime patrimonial com dados comparáveis para as 27 unidades federativas —, o mapa muda radicalmente de forma.

Posição Estado Taxa /100 mil hab. (2025)
Distrito Federal 677,1
Amazonas 671,9
Amapá 611,4
São Paulo 552,2
Pará 536,0
Rondônia 473,2
Pernambuco 426,7
Rio de Janeiro 419,1
... ... ...
25º Minas Gerais 182,0
26º Paraíba 153,6
27º Rio Grande do Sul 128,8

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (FBSP), Tabela 12.

Repare no que acontece com Distrito Federal e São Paulo. Nos dois casos, são estados que aparecem no fundo do ranking de homicídios — DF com taxa de 9,6, São Paulo com 7,8, ambos entre os mais "seguros" do país nesse indicador. Mas no roubo de celular, DF lidera o país e São Paulo aparece em 4º lugar, com taxas de três a quatro vezes maiores do que o Rio Grande do Sul, que fecha a lista.

O próprio FBSP oferece uma explicação plausível: a taxa de roubo de celular acompanha, ainda que de forma imperfeita, o grau de bancarização, digitalização e concentração de renda de cada estado — não a presença de crime organizado violento. Quanto mais aparelhos de alto valor circulando, mais oportunidades de roubo. É um padrão geográfico completamente diferente do que orienta os homicídios.

Nem tudo é comparável — e isso também importa

Vale uma ressalva de método, porque nem todo crime patrimonial tem dados tão organizados quanto o roubo de celular. Roubo a transeunte e roubo a residência existem nas tabelas do Anuário, mas a cobertura de imprensa disponível só permite confirmar alguns estados isoladamente — Pernambuco lidera o roubo a transeunte com 221,2 por 100 mil habitantes, contra apenas 50,5 em Goiás, uma diferença de quatro vezes que também não acompanha o mapa de homicídios. Já roubo a ônibus nem sequer é uma categoria nacional padronizada: cada estado mede do seu jeito, e comparar São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia nesse quesito seria comparar coisas que não são exatamente a mesma coisa.

Essa fragmentação de dados é, ironicamente, parte do problema: o crime que estatisticamente mais afeta as pessoas é também o que recebe menos atenção metodológica e institucional — o oposto do homicídio, que tem uma série histórica robusta, comparável e amplamente divulgada desde 2007.

Uma ressalva necessária

Isso não significa que homicídio seja um indicador irrelevante. É irreversível — captura um tipo de dano que nenhuma outra estatística de segurança pública consegue substituir — e, para quem vive em áreas de forte disputa territorial do tráfico, o risco é real e não deve ser minimizado. O problema não é o mapa de homicídios em si; é tratá-lo como sinônimo de "insegurança" tout court, quando ele mede um fenômeno concentrado e específico, distinto do risco disperso que a maioria da população efetivamente enfrenta.

Além disso, vale lembrar que esses números vêm de boletins de ocorrência — não de pesquisas de vitimização. Estados com melhor infraestrutura de registro e maior confiança institucional (como DF e SP) tendem a registrar proporcionalmente mais crime patrimonial, o que pode inflar sua posição no ranking em relação ao risco real. Isso não invalida o padrão, mas pede cautela na leitura.

O que fica

Se a pergunta é "onde é mais perigoso morar no Brasil?", a resposta depende inteiramente de qual perigo se está perguntando. Para violência letal ligada a disputas de território e crime organizado, o mapa tradicional de homicídios continua sendo a referência certa. Para o risco que efetivamente atravessa o dia a dia da maioria das pessoas — o celular levado na rua, a casa arrombada, o golpe pelo telefone —, é preciso um mapa completamente diferente. E esse mapa, convenientemente, é o que menos circula.


Dados: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), ano-base 2025.