Outro dia eu estava fuçando o The Brutalist Report, aquele agregador de notícias sem frescura, e pensando em como seria bom ter algo assim nativo no Android. Conversa vai, conversa vem, o assunto derivou para outro nome curioso: Palantir. Foi aí que a ficha caiu de um jeito que eu não esperava.
A Palantir, claro, é a empresa de análise de dados que está em toda parte — do Pentágono às polícias europeias, passando pelo Ministério da Defesa de Israel. Mas o que me pegou foi a origem do nome: as palantíri de Tolkien, as pedras da visão. E eu me dei conta de que dificilmente alguma empresa carregou um nome tão fiel à sua essência… e tão perigosamente irônico.
A ironia tolkieniana¶
Na mitologia de O Senhor dos Anéis, uma palantír é uma ferramenta neutra: permite ver o que está longe e se comunicar através de grandes distâncias. Mas Tolkien mostrou que, nas mãos erradas, essas pedras se tornam instrumentos de manipulação, loucura e escravidão. Saruman usou a sua para espionar e foi dominado por Sauron. Denethor enlouqueceu porque viu só o que o Senhor do Escuro queria que ele visse. No fundo, a rede de palantíri era a arquitetura de controle do Olho que tudo vê.
Quando Alex Karp e Peter Thiel fundaram a empresa com esse nome, a justificativa era nobre: criar um "oráculo de dados" para impedir o terrorismo depois do 11 de setembro. Mas, conforme fui cavando, percebi que a empresa se tornou exatamente o que Tolkien temia: uma máquina de vigilância e definição de alvos que não apenas observa, mas dita quem vive, quem morre, quem é deportado.
O que a Palantir realmente faz¶
Os produtos da Palantir são plataformas que integram quantidades colossais de dados — de redes sociais a registros telefônicos, de imagens de drones a sensores — e os transformam em inteligência acionável. O Gotham é a ferramenta de governos e exércitos; o Foundry, o cérebro de corporações; e o AIP trouxe grandes modelos de linguagem para dentro dessa engrenagem, automatizando decisões que antes ainda passavam por algum crivo humano.
Até aí, parece discurso de vendedor de software. Mas quando você cruza os contratos e as parcerias, o que emerge é assustador.
Israel e Gaza: laboratório externo¶
A parceria da Palantir com Israel é profunda. A empresa fornece tecnologia para o exército israelense, para o Mossad e para o Shin Bet desde 2013, mas a relação explodiu depois dos ataques de 7 de outubro de 2023. A partir dali, a Palantir se tornou parte viva da máquina de guerra.
Seu software foi usado em operações no Líbano que mataram líderes do Hezbollah. Foi empregado na "Operação Grim Beeper", aquela dos pagers explosivos. E, segundo investigações, ajudou a integrar dados de vigilância de Gaza para identificar alvos. Gaza virou um laboratório letal para sistemas de IA de definição de alvos, onde o ciclo entre "ver" e "atacar" se fecha em segundos.
O que faz esse laboratório ser tão valioso para a empresa é a ausência de freios. Em um território sitiado, sem proteção legal significativa para a população vigiada, a Palantir pode refinar algoritmos de maneira que seria impensável em outros contextos. Em abril de 2025, durante o Hill and Valley Forum em Washington, o CEO Alex Karp foi confrontado por uma manifestante que o acusava de enriquecer com a morte de palestinos. Sua resposta, documentada em veículos como The National e Israel Hayom, foi: “Sobretudo terroristas, é verdade” (“Mostly terrorists, that's true”). É a lógica do laboratório: as mortes são validadas pela categoria “terrorista”, que o sistema ajuda a definir.
ICE: laboratório doméstico¶
Só que a lógica não fica confinada ao Oriente Médio. Dentro dos Estados Unidos, a Palantir tem contratos antigos com o ICE, a agência de imigração, onde seu software gerencia casos de deportação. O sistema cruza bancos de dados, mapeia relações familiares, rastreia veículos e cria perfis de pessoas consideradas "deportáveis".
O ICE se tornou o laboratório doméstico, aquele mais "civilizado", que testa a vigilância em massa sobre populações vulneráveis sem que o resto da sociedade preste muita atenção. Aprendizados de um lado alimentam o outro: o que a Palantir testa em imigrantes latinos nos EUA pode ser aprimorado com a brutalidade de Gaza, e vice-versa. É um ciclo de retroalimentação que transforma pessoas em dados e dados em alvos.
A peça geopolítica: o verniz do terrorismo¶
Foi aí que percebi a jogada maior. Para expandir esse modelo, não basta ter tecnologia; é preciso ter uma justificativa legal e política que abra mercados. E é aí que entra o conceito de "organização terrorista internacional".
Em janeiro de 2025, o governo americano assinou uma ordem executiva iniciando o processo de designar cartéis e gangues transnacionais como organizações terroristas estrangeiras. Grupos como o Tren de Aragua e o MS-13 já estão na lista. Mas o debate avança em direção ao Comando Vermelho e ao PCC. Se forem formalmente classificados como FTOs, qualquer país que queira "combater o terrorismo" se torna elegível para receber assistência militar e de inteligência dos EUA — e adivinhe qual empresa está pronta para fornecer o software?
O verniz do terrorismo é a chave que destranca o planeta. Ele transforma questões locais de segurança pública em um braço da "Guerra ao Terror" global, e autoriza a instalação de sistemas de vigilância em qualquer canto sob o argumento de proteger vidas.
América Latina: a próxima fronteira¶
E é aqui que a coisa bate na nossa porta. Europa e EUA já estão cobertos: a Palantir tem contratos com o NHS britânico, com a polícia alemã, com a OTAN, com metade do Pentágono. A Rússia é o "adversário" que justifica boa parte dos investimentos militares; não é mercado, é alvo indireto dos sistemas de inteligência ocidentais. Gaza, já vimos, é o campo de provas letal.
Sobra a América Latina. E a empresa já está aqui – mas com muito menos clareza do que o debate público sugere. Há pouquíssima transparência. No Brasil, a empresa mantém CNPJ ativo desde 2014, mas o Portal da Transparência do governo federal não registra contratos públicos com a Palantir. O que existe, documentado em reportagens, é a menção a um "case de sucesso" apresentado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) em 2024. Fora isso, circulam alegações não verificadas — sem prova documental — de que a empresa teria contratos com secretarias estaduais de segurança e outros órgãos. A Polícia Federal, frequentemente citada, não aparece em nenhum registro público confiável.
No México, há registros de colaboração com autoridades contra cartéis. Na Colômbia, a empresa colabora com as forças armadas. Em El Salvador, com o estado de vigilância carcerária de Bukele, a integração seria um caminho natural. Haiti e Chile entram no radar assim que a narrativa do caos e da necessidade de "ordem" se instalar.
Se CV e PCC forem listados como organizações terroristas, a venda de tecnologia da Palantir para governos latino-americanos deixa de ser mero comércio e se torna assistência antiterrorista. É o caminho para uma rede massiva e mundial de vigilância, ancorada em cada país com o mesmo carimbo: combate ao terror. E os dados de cada lugar alimentam uma máquina que opera em escala global, aprendendo com cada rua, cada bairro, cada pessoa identificada.
O Olho que tudo vê¶
Eu não sou teórico da conspiração; estou apenas ligando os pontos que a própria realidade apresenta. A Palantir não é só uma empresa de software. Ela é o vetor de uma forma de poder que se baseia na coleta infinita de dados e na capacidade de agir sobre eles sem mediação humana. O nome Tolkien não é um acaso poético: é a descrição exata do que eles construíram.
Só que, diferente das pedras élficas, que exigiam sabedoria e direito para serem usadas, as palantíri modernas rodam em nuvem e são vendidas ao cliente que pagar mais — seja ele um governo democrático, um regime autoritário ou uma agência que decide quem deve ser removido do mapa. E com cada novo país conectado a essa rede, o Olho fica mais forte, enquanto a nossa capacidade de escapar dele diminui.
Se Tolkien vivesse hoje, provavelmente não daria nome a nada. Mas, ao olhar para a Palantir, ele reconheceria de imediato o brilho frio e sedutor de uma pedra vidente nas mãos de homens que acreditam que podem controlar o que, no fundo, já os controla.
E eu, sentado aqui, só queria um app simples de notícias. Em vez disso, encontrei o mapa do Senhor do Escuro traçado sobre o mundo real.
Fontes¶
Citação de Alex Karp (verificada)¶
- The National – “Palantir CEO says most Gazans killed are ‘terrorists’” (6 de maio de 2025)
- Israel Hayom – Cobertura do Hill and Valley Forum (1 de setembro de 2025)
- Consortium News – “The ‘Left’ Love Affair with Alex Karp’s War Machine” (6 de junho de 2025)
- Spanish Revolution – Citação em espanhol da mesma fala (4 de setembro de 2025)
Contratos com Israel e uso militar¶
- The Indian Express – “How a US tech firm filled its coffers by helping Israel bomb Gaza & enabling Trump to spy on his critics” (ampla retrospectiva)
- Middle East Eye – “Israel used Palantir technology in its 2024 Lebanon pager attack, book claims”
- Amnesty International UK – Denúncia da parceria estratégica de 2024
- Gigazine – “It turns out that Israel used technology from Palantir in the pager explosion...” (Mossad e Shin Bet)
ICE e contratos domésticos nos EUA¶
- Newsweek – “ICE To Get New Technology To Track Illegal Migrants: Report”
- CorpWatch – “Palantir Documents Expose How Trump Administration Tracks Migrants for Deportation”
- Military.com – “Pentagon Expands Use of Palantir AI in New Defense Contract” (Project Maven)
Brasil e transparência (não confirmação de contratos)¶
- DW Brasil – “O que é a Palantir, empresa de dados que avança no governo brasileiro?” (22 de abril de 2026)
- UOL – Matéria sobre a presença da Palantir no Brasil, mencionando o FNDE (23 de abril de 2026)
- CartaCapital – Reportagem alinhada com as anteriores, sem registro de contratos públicos federais (24 de abril de 2026)
- Movimento Revista – Única publicação a citar a Polícia Federal, mas sem apresentar qualquer documento ou fonte verificável (28 de abril de 2026)
Designação de organizações terroristas (Ordem Executiva 14157)¶
- Federal Register – “Executive Order 14157—Designating Cartels and Other Organizations as Foreign Terrorist Organizations…” (29 de janeiro de 2025)
- CNN Brasil – “Trump pode classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas? Entenda”
- Infobae – “Brasil negocia con Estados Unidos el freno a la designación del PCC y el Comando Vermelho…” (11 de março de 2026)
Contexto tolkieniano e origem do nome¶
- Business Insider – “Secretive data company Palantir just officially revealed its plans to go public. Here's why it's named after an all-powerful seeing stone…”
- Tagesschau – “Der Versuch, mit 'Herr der Ringe' zu den Guten zu gehören”
- The Informed Alarmist (Substack) – “Palantir: How Tech Bros Misread Tolkien”
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