Depois que publiquei esse texto sobre a Palantir, um amigo me mandou uma imagem. Era um print de um fórum anônimo, daqueles bem antigos, com uma análise tão afiada que parecia uma navalha. O texto falava sobre Harry Potter. Dizia, em resumo, que Harry nunca acreditou em nada, que a verdadeira força de mudança no mundo bruxo era Voldemort, e que a luta de Harry era apenas pela restauração do status quo. E terminava com um golpe seco: "é assim que os liberais veem o mundo".
Guardei a imagem. E ela não saiu da minha cabeça.
Porque, de repente, eu vi o mesmo fio correndo por baixo de três histórias muito diferentes: a Palantir de Peter Thiel, a saga de Luke Skywalker e a trajetória de Harry Potter. Um mito do passado, uma narrativa pop e uma empresa real de vigilância. Registros diferentes, ontologias diferentes — mas uma mesma lógica ideológica correndo por baixo de todos eles. O que me interessa aqui não é igualar ficção e realidade; é mostrar como a ficção revela os limites da imaginação política, e como a realidade, às vezes, realiza esses limites com uma precisão assustadora.
O texto anônimo: Harry Potter e a covardia da restauração¶
O argumento do fórum é este: o mundo bruxo é uma sociedade cheia de fraturas — escravidão dos elfos, racismo, burocracia corrupta, classe social estratificada. Mas Harry não se importa. A única injustiça que realmente o mobiliza é o racismo contra mestiços, e mesmo isso raramente o tira do trilho da passividade. Quando Hermione tenta libertar os elfos domésticos, vira piada. A narrativa a trata como uma chata, uma Soapbox Sadie.
Anos depois, o crítico cultural Mark Fisher deu nome a esse fenômeno: realismo capitalista — a sensação generalizada de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar uma alternativa ao sistema existente. Harry Potter vive imerso nesse realismo. Ele não concebe um mundo diferente. Ele só concebe a defesa do que está aí.
Enquanto isso, a grande força de transformação do mundo bruxo é Voldemort. É ele quem desafia a ordem, quem quer reescrever as regras. E Harry? Harry e os seus lutam para preservar o que existe. O sonho de Harry, afinal, é virar auror — o FBI do mundo mágico, o defensor máximo do sistema que ele nunca questionou.
E a vitória final? Um anticlímax. Voldemort morre porque violou uma tecnicalidade obscura sobre a posse da Varinha das Varinhas. Harry não supera Voldemort. Harry não propõe nada melhor. A magia ricocheteia.
O autor anônimo encerra com uma frase que ecoa até hoje: "Essa é a luta dos liberais. Eles vivem num mundo cheio de conflitos, mas só se incomodam com as ameaças ao multiculturalismo pluralista. Eles veem a mudança como algo negativo. E só conseguem agir dentro dos marcos legais e ideológicos da sua sociedade."
Star Wars: a República que nunca existiu¶
Quando eu olhei para Star Wars, o molde estava lá, intacto.
Luke Skywalker é o Harry Potter de uma galáxia muito, muito distante. Ele quer ser um Jedi, como seu pai. Os Jedi eram os guardiões da Velha República — uma República que a trilogia prequels mostrou ser corrupta, burocrática e paralisada. Mas nada disso importa. Luke não questiona os Jedi. Ele quer restaurá-los.
O Império, como Voldemort, é o agente da mudança. Uma mudança brutal, autoritária, sim — mas a única alternativa que a narrativa oferece. A Aliança Rebelde luta para trazer a República de volta. E a vitória final, em O Retorno de Jedi, é tão técnica quanto a de Harry: Luke destrói a Estrela da Morte II acertando um alvo impossível, enquanto Han e Leia desligam um escudo. O triunfo moral — a redenção de Vader — é um ato privado, entre pai e filho, que não reorganiza a galáxia. O Império cai porque sua arma explode.
O epílogo é o mesmo de Harry Potter. Trinta anos depois, em O Despertar da Força, a Nova República é varrida do mapa em cinco minutos de tela. A Primeira Ordem ocupa o lugar do Império. A restauração falhou porque era apenas uma restauração.
Palantir: o feitiço de contenção¶
Agora, olhe para a Palantir.
A empresa vende uma vitória técnica para o Império liberal. Seu software não questiona por que o terrorismo existe, por que a imigração se tornou um "problema de segurança", por que a América Latina está conflagrada. Ela simplesmente diz: eu identifico os inimigos para você. Onde o sistema falhou, a Palantir corrige o sistema — mas nunca além dele.
Como Harry e Luke, a Palantir é um auror, um Jedi, uma guardiã da ordem. Seus contratos com a CIA, com o Pentágono, com o ICE, com o exército israelense são versões reais da Varinha das Varinhas e do sabre de luz: ferramentas que resolvem problemas imediatos sem jamais tocar nas causas.
E o terrorista — o "Voldemort" de plantão — é sempre a força de mudança. Seja o Hamas, seja o PCC, seja um cartel mexicano. Eles são os vilões que querem virar a mesa. Nós, os heróis, somos os que mantêm a mesa de pé. A mesa pode estar podre, manchada de sangue, torta — mas é a nossa mesa.
O CEO Alex Karp sabe disso. Em abril de 2025, durante um evento em Washington, uma manifestante o confrontou: "Sua tecnologia mata palestinos." Karp respondeu: "Sobretudo terroristas, é verdade." Essa frase é a súmula da lógica técnica: as mortes são validadas pela categoria "terrorista", que o sistema ajuda a definir. O dano colateral é o elfo doméstico da nossa era — uma nota de rodapé incômoda, mas aceitável.
Sobre elfos e a gente¶
E aqui eu preciso parar um pouco. Porque, se formos honestos, a posição do elfo doméstico é a que mais se parece com a nossa.
O elfo doméstico vê tudo. Ele serve as mesas, escuta as conversas, sabe quem está tramando o quê. Ele tem mais informação sobre o funcionamento real do poder do que muitos bruxos. Mas a sua resposta à injustiça não é a revolta — é a lealdade a um sistema que o maltrata. Ele internalizou a servidão. Limpa, cozinha, organiza e, no máximo, se pune quando desobedece.
Nós, sentados diante das nossas telas, recebendo feeds cada vez mais brutais, estamos cada vez mais parecidos com elfos domésticos. Sabemos que a máquina de vigilância cresce. Sabemos que a guerra ao terror não tem fim. Sabemos das deportações, dos drones, das palantíri corporativas que mapeiam o planeta. Mas a resposta raramente passa do cansaço, do cinismo, da piada pronta — ou de mais um post. Somos cientes demais para sermos ingênuos, mas também cansados demais para nos revoltarmos. A servidão voluntária do século XXI não é ignorância. É fadiga.
E é exatamente essa fadiga que a imaginação liberal explora. Se o máximo que conseguimos desejar é a restauração — de uma República que não funcionava, de um Ministério corrupto, de uma ordem que produz os próprios inimigos que diz combater —, então a máquina venceu antes mesmo de apertar o botão.
O medo da mudança¶
O que une essas três histórias é uma visão de mundo que não consegue imaginar um futuro diferente do passado. A imaginação liberal, como disse o anônimo do fórum, é limitada à defesa do que existe. Ela não cria. Ela preserva. Ela não propõe um novo mundo — ela oferece uma versão mais eficiente, mais vigiada, mais armada do mundo atual.
Tolkien entendeu isso muito antes de todos nós — mesmo que, ironicamente, ele também fosse um pensador da restauração. Aragorn restaura o reino. Os Hobbits recompõem o Shire. Mas Tolkien sabia que a ferramenta que permite ver também corrompe quem vê. Ele escreveu uma mitologia da ordem, sim, mas também escreveu um aviso: a palantír, nas mãos erradas, não revela a verdade — projeta a vontade do poder. A Palantir de Peter Thiel tomou o aviso como manual de instruções.
Harry Potter é a fantasia que alimentou a geração que hoje opera essa pedra. Star Wars é o mito que justifica a restauração cíclica da mesma ordem. E nós, treinados por décadas de narrativas que nos ensinaram a temer a mudança como sinônimo de mal, agora enfrentamos um impasse. Os Voldemorts reais estão aí, e são genuinamente perigosos. Mas as instituições que os combatem estão frequentemente podres. E entre o medo do vilão e o medo de imaginar algo novo, o sistema segue girando — alimentado por elfos exaustos que sabem demais e fazem de menos.
Agora, enquanto eu atualizo o agregador de notícias e vejo o planeta sendo mapeado em grids de vigilância, me lembro do anônimo do fórum. Ele não estava falando só de Harry Potter. Ele estava falando de nós. E a pergunta que fica no ar é tão simples quanto dolorosa: se não acreditamos em nada, o que faremos quando a mudança bater à porta — e a mudança, pela primeira vez, não for um vilão?
Fontes¶
Texto anônimo¶
- Postagem em fórum anônimo, datada de 08/17 (Thu) 11:36:36, No. 1745693, arquivo "IMG0326.JPG". O texto critica a política de Harry Potter como metáfora do liberalismo centrista. (Recebido como print.)
Palantir — Citação de Alex Karp (verificada)¶
- The National — “Palantir CEO says most Gazans killed are ‘terrorists’” (6 de maio de 2025)
- Israel Hayom — Cobertura do Hill and Valley Forum (1 de setembro de 2025)
- Consortium News — “The ‘Left’ Love Affair with Alex Karp’s War Machine” (6 de junho de 2025)
- Spanish Revolution — Citação em espanhol da mesma fala (4 de setembro de 2025)
Palantir — Contratos com Israel e uso militar¶
- The Indian Express — “How a US tech firm filled its coffers by helping Israel bomb Gaza…”
- Middle East Eye — “Israel used Palantir technology in its 2024 Lebanon pager attack, book claims”
- Amnesty International UK — Denúncia da parceria estratégica de 2024
- Gigazine — “It turns out that Israel used technology from Palantir in the pager explosion…”
Palantir — ICE e contratos domésticos nos EUA¶
- Newsweek — “ICE To Get New Technology To Track Illegal Migrants: Report”
- CorpWatch — “Palantir Documents Expose How Trump Administration Tracks Migrants for Deportation”
- Military.com — “Pentagon Expands Use of Palantir AI in New Defense Contract” (Project Maven)
Sobre a imaginação liberal, realismo capitalista e narrativas¶
- Mark Fisher, Capitalist Realism: Is There No Alternative? (Zero Books, 2009) — Cunhou o conceito de "realismo capitalista" e analisou a paralisia da imaginação política pós-moderna.
- Mark Fisher, “Harry Potter and the Death of the Political” (via k-punk e coletâneas póstumas) — Argumenta que a série expressa uma recusa do político.
- A leitura de Star Wars como mito restauracionista é explorada em ensaios diversos em veículos como Jacobin e Los Angeles Review of Books.
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